No livro Um Pedaço de Chuva no Bolso Neres apresenta uma envolvente prosa poética ao leitor, valendo-se, primordialmente, do onírico e do fantasioso, e embalando almas com belas figuras de linguagem, num jogo de espelhos igualmente rico.
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Um Pedaço de Chuva no Bolso, de Neres

Um Pedaço de Chuva no Bolso, de Neres

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Um Pedaço de Chuva no Bolso: Se o próprio Neres tem nas imagens o ponto de partida para o mergulho criativo, sua escrita, consequentemente, se encharca de símbolos, signos e significados, num redemoinho onírico e sempre poético.

São espelhos, serpentes, olhos e versos. Pêndulos, lábios, sangue e neblina, voltando-se ora para fora, ora para dentro, numa fluidez que chama o leitor a tomar parte da dança das letras e sensações cuidadosamente arquitetadas em prosa poética, como se observa em trecho de sua última obra: “A linguagem dos versos ― habitantes dos dias ausentes ―, pedras para construir o girassol. O diálogo do jardim de orquídeas. O homem na cidade do tempo rasga a imagem: caos e cicatrizes de sombras. Falta só escalar o verso, só, mas com espelhos: o eco das almas, o abandono. Rios sobre rios, olhos sobre olhos. Fazer existir-se no rio do tempo. Água você é: desperta o rio e elabora os gritos do caminho ausente”.

Os autores das epígrafes escolhidas por Neres para receber os leitores que imergem por sua obra mais recente, Um Pedaço de Chuva no Bolso, já dizem bastante sobre o estilo do livro e do próprio autor: Mia Couto e Guimarães Rosa é que fazem as honras da casa.

Neres nos envolve com sua prosa poética, valendo-se, primordialmente, do onírico e do fantasioso, e embalando almas com belas figuras de linguagem: “Ela banha-se nas horas. Lava cada palavra com a tempestade. Os pensamentos cantam na corda do violão silvestre e decoram o vazio do lar. Coloca-os em estantes, criados-mudos, com igualdade entre as flores para que elas a deixem em paz, para não enlouquecer. É o encontro com o que chamamos mundo. A melodia para que a faça entender: não pode iluminar todos os caminhos”.

Realidades e verdades que se expõem à luz do dia a dia, também figuram na obra, como no trecho do texto intitulado O cálice na voz do corvo: “Maria não consegue mais se lembrar do rosto da mãe. ― Minha mãe é a rua! Doze anos. Ela. Carrega uma boneca, presente de Natal. A miséria não dá trégua: a fome, rosto antigo, dentro de Maria. Virgindade tem valor. O suor daquele homem corre pelo seu corpo. O sol, um punhal modela seu rosto: a alma cortada. O choro, o grito, e nenhum anjo para escutar. Nenhuma lágrima. Hoje ela almoçou!”.

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